A indústria automotiva chinesa impactou o mundo de um jeito que se tornou quase impossível evitá-la. Além das inúmeras marcas que chegaram ao Brasil, até mesmo os grupos tradicionais têm conseguido se beneficiar disso e o inédito Ram Dakota, meu teste da vez, é um exemplo perfeito disso.
Lançado em fevereiro deste ano, o novo Dakota colocou a Ram na disputa das pickups médias pela primeira vez na história da marca e fez isso de maneira inteligente, aproveitando a base chinesa dos produtos da Changan. Foram mais de 700km ao longo de uma semana e trago tudo pra você agora!

Hermano chinês
A vida do novo Dakota começou alguns anos antes do nascimento do grupo Stellantis, como fruto de uma parceria entre a antiga aliança francesa PSA e a gigante chinesa Changan. Dos muitos produtos oriundos dessa ação, como os da submarca de luxo DS Automobiles, um deles foi o Changan F70.
Do F70 nasceu o Peugeot Landtrek que, no Brasil, é vendido como Fiat Titano desde março de 2024. Já o Ram Dakota é derivado do Changan Hunter, uma atualização do F70 que trouxe mais sofisticação e tecnologia embarcada, sendo fabricado na Argentina desde outubro do ano passado.

É o mesmo, só que melhor
O Ram Dakota traz um único conjunto mecânico que combina um motor 2.2 turbodiesel a uma caixa automática de oito marchas e sistema de tração integral seletiva com reduzida. São até 200cv e 45,9kgfm de potência e torque máximos no motor que também equipa Titano, Toro e Rampage.
Os números oficiais falam num 0 a 100km/h em 9,9 segundos e máxima de 180km/h – não impressionam, mas se saem melhor na prática do que na teoria. Além disso, a excelente média de 15,6km/l ao final do teste mostra que o Dakota consegue ser muito mais econômico do que os rivais diretos.

Atualmente, o Dakota é oferecido em quatro configurações com preços que vão de R$285.990 a R$329.990 – segundo a tabela atual de outubro/2026. O conjunto mecânico é sempre o mesmo e a lista de equipamentos traz diferenças mínimas; as maiores mudanças são de acabamento e estilo geral.
Há faróis Full LED, bancos dianteiros com ajustes elétricos, ar dual zone com saídas traseiras, sensores dianteiros e traseiros, câmeras 540º, recursos ADAS, cluster de instrumentos 100% digital, faróis de neblina em LED, protetor de caçamba, capota marítima, estribos laterais, entre muitos outros.

Não é híbrido, mas parece
Foram exatos 751km percorridos com o Ram Dakota na versão Laramie, a 2ª configuração mais cara – a 1ª é a Laramie Night Edition com detalhes escurecidos. O primeiro fato que impressiona é que, ao final do teste, o marcador digital de combustível ainda tinha três pontos de um total de oito.
Pois é: foram 751km sem se preocupar com abastecimento e ainda havia pouco menos de meio tanque disponível pra rodar. Pelas contas que fiz, considerando a média de 15,6km/l e o tanque de 80 litros, daria pra rodar mais de 1.200km com um tanque cheio, algo que muitas médias não conseguem.

Calma: eu sei que consumo e autonomia nem sempre são prioridades de quem compra uma pickup média, mas esses “feitos” do Dakota são dignos de nota, especialmente porque minha condução foi bem mista – urbano e estrada, calmo e apressado… Bem abrangente, o que reitera o potencial do utilitário.
Externamente, o Dakota passa uma sensação “mais chique” do que o Titano por trazer todas as luzes principais em LED e os imensos emblemas RAM na frente e atrás. Não tem a mesma identidade dos demais produtos da marca (e que o Rampage replica bem), mas não faz feio e agrada no geral.

Por dentro, a cabine é 100% derivada do Changan Hunter atualizado e isso é bom, pois há um salto de qualidade em vista do interior do Fiat Titano. O acabamento varia de acordo com a versão: a Laramie testada traz diferentes tons de cinza em combinação com um bonito marrom achocolatado. Deu certo.
A percepção geral de qualidade é boa, apesar do Dakota (novamente) não lembrar os irmãos nesse aspecto, mas acho que alguns detalhes menores pecam em um modelo que ostenta a marca RAM. Nada grave, principalmente em vista do preço inferior ao dos concorrentes em versões de topo.

O console central é vazado na parte de baixo, solução muito usada por diversos fabricantes atualmente. Há porta-objetos, tomada 12v e portas USB tipo A (à direita) e tipo C (à esquerda).
Ao volante, a pegada do Dakota lembra o Titano – que é a mesma de picapes médias mais antigas, o que promete agradar ao público mais “raiz”. A direção é um tanto indireta, o diâmetro de giro é bastante limitado e o comportamento geral é meio de “banheirona”, tipo carro americano. Isso é bom ou ruim?
Depende de quem analisar. Se você é um tanto avesso a modernidades, certamente será feliz com ele como eu fui. Até gosto das atualidades, mas acho que pickups pedem essa pegada mais rústica como se não ligassem pras tendências. Se não é seu caso, talvez seja melhor levar um dos rivais.
O “Parking” do câmbio é feito por um botão separado. Demais comandos são do seletor de modos de condução (botão Drive Mode), seletor do modo de tração (giratório), assistente de permanência em faixa (aba esquerda) e bloqueio eletrônico do diferencial (aba direita).

Ainda assim, o Dakota tem um rodar superior ao Titano. É mais silencioso, mais confortável, mais na mão… enfim, é “mais tudo” e isso já justifica a compra por si só. A suspensão é um dos pontos altos, pois mergulha menos nos defeitos da pista e também proporciona menos rolagem de carroceria.
O 2.2, de fato, não esbanja desempenho nos mais de 2.100kg da pickup, mas é adequado: ele não falta quando é mais exigido. Senti falta de paddle-shifters no volante, porém é possível fazer trocas manuais na própria alavanca e também há um modo Sport que deixa o carro mais “acordado”.

Além da eficiência energética, outro ponto digno de nota é a iluminação – sempre fico de olho nisso porque pego estradas à noite com frequência. O conjunto do Dakota é ótimo: projetores fazem luz baixa e alta, trazendo ajuste preciso de altura do facho por um seletor eletrônico à esquerda do volante, no painel.
Há farol alto automático como parte do pacote ADAS e, também, faróis de neblina por refletores em LED que são igualmente bons; após um breve ajuste manual de altura, ficaram no ponto certo e deixaram a condução noturna segura. Por fim, as luzes de posição fazem animações ao travar/destravar do carro.

Melhorou, mas ainda pode melhorar
Lembro quando testei o Titano 2024 e, depois, o 2026 e notei as melhorias substanciais tanto na central multimídia quanto no painel de instrumentos. Com o Dakota acontece a mesma coisa: também há melhorias em relação ao Titano e elas vão além do aspecto mais moderno do conjunto que faz como se fosse “uma grande tela unida”.
O cluster é de fácil visualização e até tem alguma personalização mínima; já a central multimídia, embora tenha recursos como espelhamento sem fio, podia trazer mais configurações sobre o carro em si. De igual modo, o rádio deveria ser mais direto, pois pega estações demais com sintonia aquém do esperado.

Sobre os ADAS, confesso que usei pouco porque não gosto, mas não notei nada que desabonasse. Na verdade, devido a sua origem, o Dakota lida com eles melhor do que outros Stellantis vendidos no Brasil, pois não religa recursos a cada partida: o que você desligar permanecerá desligado até sua segunda ordem.
Todo o básico está ali e não apenas na versão Laramie: piloto automático adaptativo, assistente de frenagem de emergência, monitor de pontos cegos, farol alto automático… Não dá pra sentir falta de muita coisa e vale acrescentar mais um ponto pela Stellantis não ter “capado” a variante de entrada Big Horn.

Levar ou não levar?
Vejo muita gente criticar a dupla de pickups da Stellantis por sua pegada excessivamente rústica, mas eu digo que essa é, justamente, a maior qualidade delas. A versão “mais premium” da Ram melhora em vários aspectos e vale muito mais a pena, principalmente se você conseguir um desconto.
Você não vai se sentir em um dos gigantes como os 1500 em diante, mas dá pra ser feliz com ele e fazer tudo o que você faria em outra picape, ainda com o “plus” de uma autonomia de uso muito boa e outras qualidades sem gastar 350 mil reais ou até mais Se rolar um desconto, como eu disse, melhor ainda.

























