Se tem um produto que está dando o que falar no mercado automotivo, esse produto é o Geely EX2. O compacto 100% elétrico oriundo da China tem feito barulho e incomodado muita gente, inclusive conterrâneos, então eu corri pra conseguir avaliá-lo de perto e ver se todo esse burburinho é justificado. Quer saber o que achei?
Então fica aqui porque tô só começando e tenho muita coisa pra falar, especialmente porque o cenário de consumo dos EVs mudou bastante no Brasil e o EX2, embora tenha sido lançado há pouco tempo, tem ajudado a puxar os índices de vendas desse tipo de veículo pra cima. Chega de enrolação e vambora!

Djíli? Acho que já te vi por aqui…
Antes de falar do EX2, contudo, vale dar uma pincelada sobre sua fabricante, especialmente porque ela já tem um passado com o Brasil. A Geely como conhecemos, montadora de automóveis, nasceu em 1998 e é apenas uma parte de um conglomerado homônimo, maior e mais antigo. Sua primeira vinda pra cá foi em 2014.
Na época, a marca trouxe o sedan médio EC7 em março por cerca de R$50.000 e, meses depois, o hatch compacto GC2 em agosto por R$29.990; seu importador era o Grupo Gandini, responsável pela Kia. Apenas dois anos depois, a marca encerrou as operações por aqui tendo comercializado pouco mais de mil carros no total.
Agora a história é completamente diferente, pois a empresa comprou 26,4% da Renault do Brasil e irá dividir a fábrica de São José dos Pinhais (PR) pra fabricar não apenas o EX2, mas também o EX5 híbrido. O começo da fabricação de ambos é previsto ainda pra 2026, mas por hora eles são importados da China tal qual o EX5 elétrico.

Desejo às estrelas
O EX2, chamado de Xingyuan no seu país de origem, nasceu em 2024 e chegou aqui no Brasil em novembro do ano passado, posicionando-se como um dos elétricos mais acessíveis do país, mirando em modelos como os BYD Dolphin e Dolphin Mini, mas rivalizando indiretamente com MG 4 Urban, GAC Aion UT e outros.
Ele é oferecido em duas versões: a de entrada Pro por R$123.800 e a top Max por R$136.800 – a avaliada aqui é justamente a Max. Externamente elas se diferenciam pelas rodas de liga e o teto preto na Max, pois a Pro traz rodas de aço com calotas e o teto na mesma cor da carroceria. Já o conjunto motriz é o mesmo pra ambas.

Não puxe. Empurre
O EX2 tem diferentes configurações disponíveis lá fora, mas vem ao Brasil somente com o motor mais forte, localizado no eixo traseiro, gerando até 116cv e 15,3kgfm de potência e torque máximos. O conjunto é alimentado por uma bateria de 39,4kWh que garante até 289km de autonomia segundo o INMETRO e 410km no CLTC.
Sâo 10,2 segundos pra ir de 0 a 100km/h e a máxima é limitada eletronicamente em 140km/h; sobre a autonomia, estime uns 320 a 350km com conforto no uso real. Falando de recarga, ele suporta até 6,6kW em corrente alternada (AC) e até 70kW em corrente contínua (DC) – nesse caso, podendo ir de 30 a 80% em 21 minutos.

Falando de equipamentos, o Geely EX2 não tem nenhum opcional: é tudo de série pra ambas as versões. A de entrada Pro já traz ar-condicionado digital, faróis Full LED com ajuste de altura, multimídia de 14,6″, chave presencial, 6 airbags, freio eletrônico de estacionamento com auto hold, câmera de ré, entre outros.
A top de linha Max acrescenta recursos ADAS (incluindo ACC), rodas aro 16 em liga leve, iluminação ambiente com 256 cores, ajustes elétricos pro banco do motorista, câmeras com visão 540º, alto-falantes nas portas traseiras e carregador de smartphones por indução, além de funções remotas pelo app da Geely.

Simpatia gera simpatia
Rodei mais de 700km ao longo da semana com o EX2 e, pra falar do convívio diário com ele, começo pasticheando o icônico José Datrino. Se não sabe quem é, talvez o conheça pelo vulgo “Profeta Gentileza”. Isso porque meu primeiro sentimento ao ver o EX2 em fotos não foi dos mais simpáticos. Não gostei de imediato.
Acontece que o EX2 é um carrinho simpático e essa simpatia vai contagiando com o tempo. Minha bronca inicial era pelas linhas muito arredondadas, mas aprendi a gostar. Até a cor Verde Pistachio, que também me incomodou de cara, passei a admirar, o que nos lembra que algumas coisas precisam de tempo pra analisarmos melhor.

De cara, ao ser destravado pela chave ou maçaneta, ele realiza um breve show de luzes e pode tocar um dingle divertido ao ser travado após o estacionamento – você pode escolher entre três sons diferentes ou desativar o recurso, que foi o que eu fiz. As quatro janelas podem ser abertas ou fechadas remotamente, útil em dias quentes.
No cockpit, uma solução herdada dos parentes da Volvo: não há botão de partida, pois basta pisar no freio e mexer no câmbio em D ou R pra ligar o carro, mas você pode desligá-lo por um comando no multimídia ou apenas colocando em P, saindo e trancando normalmente. Praticidades que melhoram o convívio diário.
A central multimídia é enorme e permite que se configure quase tudo do carro, contando ainda com temas e a possibilidade de colocar papéis de parede personalizados. Percebe-se que a Geely se esforçou pra deixar o EX2 minimamente customizável como muito se vê no mercado premium e isso ajuda a deixar o compacto mais cativante.

Os bancos são em vinil e, nessa versão Max, trazem ajustes elétricos pro motorista, mas aqui deixo a primeira reclamação: não há ajuste de profundidade pro volante, apenas o de altura. Também não há regulagem de altura dos cintos, porém ele tenta compensar com uma boa amplitude de ajustes dos assentos. Ok, dá pra passar.
Já o espaço interno surpreende; quatro adultos conseguem viajar com folga e conforto mesmo que sejam altos, mérito dos 2,65m de entre-eixos que superam inúmeros SUVs compactos e até alguns médios. O porta-malas de 375 litros também é bom e, junto do espaço interno, se mostra um dos maiores trunfos do EX2.
As luzes de cortesia são em LED e estão presentes pra todos, bem como portas USB e saídas de ar, ou seja: quem vai atrás não foi esquecido. Há quebra-sóis com espelho e iluminação (bonita, mas inútil no escuro) e um engenhoso porta-luvas em forma de gaveta, uma exclusividade da variante top de linha que agradou.

Em sincronia com o prazer
Passadas as impressões iniciais (que foram boas), chegou a hora de comentar o aspecto que mais me deixava curioso sobre o EX2: a dirigibilidade. Antigo ponto fraco dos chineses, esse tópico tem melhorado substancialmente e o modelo de entrada da Geely não deixou a desejar, mostrando que ela fez o dever de casa.
O motor elétrico montado no eixo traseiro é do tipo síncrono que, falando de forma extremamente resumida, é mais caro e mais eficiente por ser menor e lidar melhor com altas temperaturas – e motores elétricos podem esquentar bastante. Em matéria de desempenho, o EX2 se sai muito bem o tempo inteiro.
Como em todo EV de entrada, a melhor entrega de potência e torque ocorre até uns 60km/h que é onde o EX2 “brilha” nas acelerações; acima disso, o comportamento fica mais pacato, mas continua decente o suficiente pro modelo manter um bom ritmo na estrada. Só tome cuidado pra não derrubar sua autonomia.

Motores síncronos, além de menores e mais leves, entregam sua potência e torque de maneira mais eficaz, algo que pode ser percebido logo nos primeiros quilômetros. Ele conta com três modos de condução selecionáveis pelo multimídia: Eco, Comfort e Sport. O Comfort é o padrão, mas o Sport é o melhor e foi o que mais usei.
A direção é leve e os pedais têm o peso correto, mas minha predileção por usá-lo no modo Sport se deu pela melhor resposta do acelerador e a maior entrega de força; o Comfort fica “fofo”, mas é o que irá agradar a maioria dos donos. Vale lembrar que há suspensão independente e freios a disco nas quatro rodas, o que é ótimo.
No rodar, o EX2 nos faz esquecer dos chineses antigos, pois o comportamento é firme e confortável na medida, sem excessos. A inclincação da carroceria é dentro do esperado e os defeitos/buracos da pista são superados sem sustos ou batidas secas, do jeito que deve ser. As frenagens são seguras e precisas, sem solavancos.

Na verdade, a essa altura, é mais fácil falar do que desagradou no EX2 porque foi pouca coisa. O ar-condicionado, por exemplo, tem o mesmo problema do Dolphin Mini de só oscilar entre quente e frio; não existe um meio-termo pra ser usado em dias de temperatura amena, o que me obrigou a ficar mexendo nele toda hora.
O sistema de som também não é dos melhores e o painel de instrumentos não permite nenhuma alteração no que você vê nele, além da tela brilhar demais mesmo com o ajuste no mínimo, o que incomoda na condução noturna em vias sem iluminação pública. Por fim, a falta de limpador e esguicho no vidro traseiro é injustificável.

“Ravito, cê falou muito e não respondeu o que eu queria saber: vale a pena?”
Sendo curto e grosso: vale. A questão é que estamos falando de um carro de menos de 140 mil reais que entrega espaço interno muito bom, porta-malas considerável (pra um hatch), desempenho de 1.0 turbo e todas as benesses da eletrificação pura – tudo isso com 6 anos de garantia pro carro e 8 pra bateria ou 150 mil km pra ambos.
É evidente que ele possui seus pontos fracos, mas eu gosto de ponderar tudo pelo preço – e hoje, infelizmente, os “cem mil reais são o novo cinquenta mil“. Nessa faixa, o que se tem em sua maioria são SUVs subcompactos apertados ou SUVs compactos de entrada, ambos sem os recursos de comodidade e tecnologia do EX2.
Mas não posso fechar a matéria sem lembrar da dica desse post aqui, pois ela é um fator determinante sobre se você pode colocar um EX2 ou qualquer outro elétrico na garagem atualmente. Caso possa, acredite: o menor Geely de todos é muito bom e mostrou que as filas de espera nas concessionárias fazem sentido.






























