Já reparou que as pessoas, de um modo geral, parecem estar mais estressadas do que nunca? Seja no trabalho, em casa, no trânsito e até mesmo aqui no ambiente digital. Parece que a vida se tornou um campo de batalha e todo mundo tá brigando entre si, atirando projéteis pra todos os lados ao menor sinal de conflito.

Não sou psicólogo e nem um estudioso voltado ao comportamento humano, mas sou comunicador e tenho observado como a comunicação interpessoal tem se tornado cada vez mais difícil. Sei que isso pode ter vários motivos, mas eu acredito em um específico e é dele que quero falar aqui: as redes sociais.

Smartphone com o Instagram aberto, mostrando um post estilo "brainrot".
Já ouviu falar em “brainrot”? Significa, literalmente, derretimento cerebral.

“Como assim, Ravito? O que usar redes sociais tem a ver com estresse?”

Sinto dizer, mas tem muito a ver. Na verdade preciso ser justo: o problema não é a rede social em si e sim como as pessoas usam – pelo menos uma grande parte delas. Nasci em 1990, então minha adolescência foi marcada pelos extintos Orkut e MSN, além das salas de bate-papo. As pessoas não se odiavam como hoje. Sério.

MSN era pra fazer amizade, paquerar… Orkut era pra ter os amigos e rir com as comunidades engraçadas, trocar informações legais. Salas de chat eram tipo o MSN, mas mais abertas. Não existia essa polarização toda, essa raiva extrema que parece andar reprimida no mundo real e exposta sem filtro no mundo virtual.

Já hoje, meu amigo e amiga, o objetivo das redes sociais é transformar tudo em problema e deixar todo mundo maluco. Todo mundo quer ter voz e gritar o que acha até bater de frente com outro que pensa diferente, aí começa a troca de ofensas gratuita, de ódio e de opiniões sem base alguma. Por que isso acontece tanto?

Mulher sentada na cama, assistindo a um vídeo acelerado em plataforma de vídeos.
Quem nunca assistiu um vídeo na velocidade 2x ou até mais alta? Que atire a primeira pedra…

Assistir em 2x (ou mais rápido)

O que fazer quando aquele vídeo ou áudio até tem um conteúdo interessante, mas você só quer consumir as partes relevantes dele? BOTA NO 2X, É CLARO! Maravilhoso, não é? Você tem o poder de pegar apenas a parte que interessa, acelerando ou simplesmente pulando as seções mais chatas. Realmente é ótimo, mas…

…isso acaba, de forma imperceptível, tirando nossa capacidade de lidar com os momentos maçantes e “tediosos” da vida. Nos acostumamos tanto com essa função, seja em áudios do WhatsApp ou vídeos do Instagram e YouTube, que quando somos obrigados a lidar com algo “chato” do cotidiano, esse algo nos irrita muito mais.

Não é à toa que as pessoas andam tão “pilhadas”. Quanto mais você acelera tudo o que vê, mais você diz ao cérebro que ele não precisa mais lidar com o que não for imediatamente estimulante, mas a vida real não é assim. Reduza a velocidade, exercite a paciência e reaprenda a lidar com o que não te excita na hora.

Pessoas na rua, discutindo por causa de postagens nas redes sociais.
Os duelos virtuais, se acontecessem na vida real, seriam mais ou menos assim.

Consumir apenas o que te agrada

Quando você faz um perfil em uma rede social, a ideia é interagir com as pessoas que gosta e consumir apenas o material que agrada, não é mesmo? É o óbvio e é o que todo mundo faz, mas convenhamos: a vida real não é assim. Ela não é feita somente do que nos apraz, muito menos lidamos apenas com quem gostamos.

Calma. Não tô sugerindo que você saia adicionando seus “inimigos” ou que saia curtindo coisas aleatórias que não gosta. O que quero dizer é que esse hábito de se encher daquilo que traz qualquer espécie de prazer nos deixa menos tolerantes ao que não é tão agradável assim. Já entendeu onde quero chegar, né?

Na vida você vai conhecer pessoas que pensam diferente. Que discordam, que não te validam, que não “fecham” com as suas ideias… e TÁ TUDO BEM. Ninguém precisa ser fã de tudo o que você faz ou pensa e nem você precisa disso; os conflitos (saudáveis) de ideias e pontos de vista nos amadurecem e fazem crescer.

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É exatamente assim que uma pessoa que vive grudada no celular fica. Pelo menos filosoficamente.

Explosões constantes de dopamina

Esse nome nunca esteve tão em alta, mas acho que a maioria ainda não entendeu o que é. Dopamina, falando de forma extremamente resumida, é o “botão de recompensa” do nosso cérebro. Ele (o cérebro) libera dopamina sempre que nos deparamos com algo que nos agrada e libera ainda mais quando fazemos esse algo.

Como muitas outras coisas que o nosso corpo produz, a dopamina é essencial pra vida, mas faz mal quando está em excesso – que é o que as redes sociais fazem. Quando as usamos, especialmente pra “nos entupirmos” dos conteúdos que gostamos, o cérebro libera pulsos enormes e rápidos de dopamina imediata.

Isso causa diversos efeitos negativos: perda de interesse em atividades normais, dificuldade de manter o foco, ansiedade constante, cansaço mental, preguiça, busca por fontes de prazer mais extremas e até mesmo vícios. Já entendeu o tamanho do estrago, não é? Você perde o interesse de buscar coisas reais e duradouras.

Mulher sentada, meditando pra relaxar após o uso intenso de redes sociais.
Já experimentou se desligar de tudo? Nem que seja por um pouco de tempo no começo. Faz muito bem.

μέτρον ἄριστον

Não entendeu? Significa metron ariston, uma máxima da Grécia antiga que significa “a moderação é o melhor”. Diversos povos antigos pregavam a busca pelo equilíbrio, pois já sabiam que essa é a forma ideal de se conduzir tudo na nossa vida. Com as redes sociais não é diferente: em excesso fazem mal, muito mal mesmo.

Na vida real, as coisas não podem ser aceleradas. A gente não vê apenas o que gosta e nem lida somente com quem simpatizamos – e, mais uma vez, tá tudo bem. Saber lidar com o diferente é essencial. Saber passar desconforto é saudável. Saber sentir tédio e usufruir dele é maravilhoso, pois acalma nosso sistema.

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Fala a verdade: há quanto tempo você não se sente assim? Leve, relaxado..

“O que eu devo fazer, então? Parar de usar?” – EU reduzi meu uso drasticamente, mas não tô lhe sugerindo isso. Esse artigo, na verdade, é um convite pra voce repensar hábitos e analisar se toda essa irritação e ansiedade que sente talvez tenha uma origem aparentemente pouco óbvia, mas que você consome direto.

Já existem estudos científicos que associam o uso intenso de redes sociais a sintomas como impaciência e raiva – trago aqui os da JAMA Network Open e o podcast da UFU (Universidade Federal de Uberlândia) sobre o assunto. Pense nisso, busque práticas mais saudáveis pro seu dia e as melhoras não demorarão a aparecer.

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